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Os Braços da Lancha - Abraão Cruz

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Os Braços da Lancha
por José Peixoto

“Convém não esquecer que a lancha poveira existe porque houve um senhor chamado Manuel Lopes, caso contrário estou convencido que não teríamos a Fé em Deus”, é com esta convicção que Abraão Cruz abre o livro das recordações, da mais conhecida e representativa embarcação tradicional da Póvoa de Varzim.

Abraão Cruz nasceu perto da igreja da Lapa, em 1946. Para além da família tem dois amores, a lancha poveira, onde é tripulante desde o bota-abaixo e os aviões, sendo presidente do Aeroclube do Norte. É com alguma saudade que recorda o mar da sua meninice: “fiz parte daquela miudagem que ia dar banho nu. Fazíamos uma cova na areia, enterrávamos as roupas e era tudo nosso. Como íamos muitas vezes para a ponta do cais norte ver as pessoas pescar, retenho na memória o privilégio de assistir à saída das célebres lanchas poveiras. Antes de passar a barra, os pescadores tiravam as boinas, benziam-se, rezavam e só depois começavam a faina. Mastro no ar, montagem do cordame, vela ao vento e lá iam mar fora”.

A ligação à lancha poveira foi para Abraão Cruz fruto de algumas coincidências: “estou ligado à lancha desde a sua construção. Um dia, a conversar com João Feiteira, construtor da lancha Fé em Deus, conjuntamente com o senhor António, fiquei a saber que ele tinha sido, em Moçambique, colega do meu pai, que eu não conheci porque fiquei órfão muito menino. Eram ambos carpinteiros navais. O facto criou entre nós uma ligação efectiva que nunca mais descorei. Foi ele que desenhou e calculou a lancha poveira, respondendo ao desafio lançado por Manuel Lopes à autarquia e ao Clube Naval. A amizade pelo meu pai levou-o a convidar-me para pregar um prego na lancha. Este seu gesto foi muito emocionante para mim”, recorda o tripulante.

Os poveiros viveram com muita alegria o bota-abaixo: “foi uma festa extraordinária com o rancho poveiro, o grito no bota-abaixo, o Ala-Arriba da lancha para seco. Lembro-me de alguns tripulantes, como o tio Cavalheira, o José Maria, o Lázaro, o mestre Agonia, que só não foi o homem do leme no bota-abaixo. Alguns já faleceram, como o Ti Zé Poveiro, pai do tripulante Carlos Flores. Houve também um grupo significativo de velejadores do Clube Naval, onde fui director e fez vela muitos anos”.

Em duas décadas de navegações, há momentos que não se esquecem mais: “a viagem à Expo98 é inesquecível pelos vários incidentes que obrigaram a improvisar soluções. Quando partimos a verga, o mestre Agonia, um homem forjado nas andanças da pesca do bacalhau, valeu-se da sua experiência para com o pano montar um tipo de vela latina em pequenas dimensões, mas que dava para a lancha navegar apoiada pelo motor. Fomos assim até Peniche. Recordo também uma viagem a Bouzas com nevoeiro cerrado, sem qualquer aparelho de navegação, apenas com os saberes do mestre Agonia e do Victor Castro. Encontramo-nos à entrada da Ria de Vigo proa com proa com um barco da organização, que deixou espantado o seu timoneiro”.

Com 20 anos de tripulante, Abraão Cruz manifesta um desejo: “ Espero que a autarquia continue a apoiar este ex-líbris da Póvoa e procure realizar os grandes sonhos do Manuel Lopes. A construção de uma nova lancha e a criação de um espaço coberto para a lancha, em doca molhada, criando um Centro Interpretativo para os nossos jovens. Nós vivemos a pensar no futuro, mas o nosso passado tem um peso significativo e não nos podemos esquecer disso. Tenho muito orgulho em pertencer à tripulação da lancha poveira”.

A Voz da Póvoa (15 Junho 2011), p. 15.

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