Lancha Poveira

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Os Braços da Lancha - António Pereira

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Os Braços da Lancha
por José Peixoto

“A construção da Lancha Poveira tem um pouco do meu suor e sinto orgulho nisso”, começou por dizer António Pereira para depois justificar: “na altura da construção eu estava desempregado. Embora a obra estivesse a cargo dos estaleiros Postiga & Feiteira, o carpinteiro foi o António Ferreira. Como o visitava todos os dias, ele convidou-me a dar uma ajuda na construção da lancha. Foi o trabalho que mais me orgulho de ter feito”.

António Pereira nasceu na Póvoa de Varzim em 1964. Aos 14 anos de idade começou a arte de serralheiro na indústria náutica. Não é descendente de pescadores mas foi na língua do mar que todas as brincadeiras da infância desaguaram. Aos 10 anos foi para o Clube Naval aprender a velejar. Competiu mais de 20 anos, tendo sido campeão nacional de Juniores, em parceria com António Vianez.

O antigo velejador recorda como integrou a primeira tripulação da Fé em Deus: “foi o Manuel Lopes e o Alberto Marta que me escolheram. No início a lancha esteve muito ligada ao Clube Naval e a tripulação era composta por mestres pescadores e elementos do clube. A lancha é um barco de boca aberta. Quando chovia era eu que ia tirar a água a balde e baldeava com água salgada. Era tudo feito à moda antiga”.

Para António Pereira a vela da lancha foi outro trabalho de exigência maior. “Foram os mestres Bandeira e Amaral que fizeram a vela. Com o tecido de uma vela antiga, foram com o Manuel Lopes à têxtil do Manuel Gonçalves, a Famalicão. No laboratório verificaram o tecido, e foi feito um igual para a vela da lancha poveira. Os antigos encascavam o pano para lhe dar resistência e agarrar melhor o vento. A actual é de lona e tem outra eficácia. Na pesca do bacalhau os poveiros eram conhecidos por terem os dóris mais rápidos porque sabiam cortar o pano como ninguém”, conclui.

O bota-abaixo e a primeira longa viagem da Lancha Poveira são memórias que jamais esquecem: “milhares de pessoas a assistir, ver no rosto a emoção dos velhos pescadores e integrar um restrito grupo de pessoas que foram ao mar na Fé em Deus, foi inesquecível. Depois fomos a La Guardia, na Galiza, onde as velhas lanchas poveiras arribavam com o mau tempo. Nesse dia, o mar estava mauzinho e fazia-se acompanhar por uma nortada que só os velhos lobos-do-mar contrariavam à vela. Decidiu-se ir a reboque. Fomos recebidos em festa, com ranchos folclóricos e muita gente a aplaudir. Sabíamos da relação dos antigos pescadores poveiros com aquela terra. Até existem siglas na porta e no púlpito da capela de Santa Tecla, onde o poveiro virava o norte à telha”.

Para o antigo tripulante, Manuel Lopes ficará umbilicalmente ligado à Lancha Poveira. “Durante a construção era uma presença constante junto da lancha, a tirar fotografias. Foi o grande obreiro da Fé em Deus. Nas viagens, ia muitas vezes à proa, a fotografar”. E acrescenta: “ ele era muito temperamental. Em Setúbal, a organização ficou de arranjar um barco para nos acompanhar durante a regata dos Galeões do Sado, mas ninguém apareceu. Depois de vencer a regata foi-se o vento. Enquanto remava-mos, o Manuel Lopes ligou para a organização e abriu o dicionário das tempestades. No entanto, tinha um enorme respeito pelos pescadores, dentro da lancha só eles podiam abusar na brincadeira. Sentia-se feliz entre a gente do mar. A lancha poveira era corpo do seu sangue”.

Quanto ao voltar a navegar na Fé em Deus, António Pereira hesita na resposta: “já tive o meu tempo. O que gosto mesmo é de ver a lancha a sair a barra à vela. Ninguém imagina o prazer que me dá. Estar a bordo é outra adrenalina, outra paisagem, mas vista de terra é uma beleza. É como se no mar navegasse a saudade. Talvez um dia, quem sabe”.

A Voz da Póvoa (3 Julho 2013), p. 15.

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