A emocionante conversa com três peixeiras de Póvoa de Varzim *
Rose Mary Gerber **

Póvoa de Varzim fica a cerca de trezentos e quarenta quilômetros da capital, Lisboa, e situa-se na região Norte de Portugal aonde cheguei para saber quem são as mulheres das pescas nesta localidade.
Devo dizer que meus deslocamentos e muitos contatos foram mediados por Manuel Costa, diretor da Biblioteca Municipal por Póvoa de Varzim, contato inicialmente sugerido por meu amigo antropólogo, Luis Martins.
Em Póvoa de Varzim, se os homens vão ao mar, pescam e trazem, são as mulheres que cuidam, limpam, arranjam, vendem; sabem tudo sobre o mar e a vida que ali se passa. Estas poveiras são chamadas peixeiras.
É sobre elas que vamos saber um pouco a partir das narrativas feitas por suas próprias palavras.
Trata-se, segundo ouvi das peixeiras, de um conhecimento adquirido por meio do aprendizado direto e continuo que, se por um lado é intra-gênero, passado de mulher para mulher; por outro é intergeração, pois se dá entre avós, mães, filhas e netas. Começam muito cedo, em torno dos nove, dez, onze anos, quando ainda “eram apenas crianças”, o que gerou em algumas uma revolta inicial; em outras uma paixão que as fazia “fugir para estar nesta vida”.
Trata-se de uma vida difícil por um lado, mas que, por outro, é a vida que aprenderam e que sabem viver.
Trata-se de afirmar categoricamente que sem as mulheres poveiras peixeiras, a pesca de Póvoa de Varzim não tem como ter continuidade, pois são elas que conseguem dar aos produtos que os homens pescadores trazem do mar, uma mais valia que só é possível com o beneficiamento, a limpeza e a comercialização de seus produtos.
Trata-se, pois, do fato de que o mundo das pescas não se constitui só do ato direto de pescar, de ir ao mar, mas de todos os momentos que acontecem assim que os pescadores chegam a terra e que as mulheres entram em ação.
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* Agradeço ao incansável senhor Manuel Costa, Diretor da Biblioteca Municipal de Póvoa de Varzim, e toda sua equipe de trabalho, pela recepção, gentileza, material cedido e contatos viabilizados.** Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de Santa Catarina (PPGAS/UFSC), Brasil; funcionária da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri); e doutorado sanduíche em Portugal. Seu tema de pesquisa é sobre mulheres pescadoras.


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