Manuel Lopes e a RNCM

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(…) a causa do Mar ganha em Manuel Lopes uma renovada singradura de destino, no entendimento da vida do mar, com o projecto da lancha poveira do alto “Fé em Deus”, e na percepção da Rede Nacional da Cultura do Mar.

 

É oportuno citar as palavras vivas de Manuel Lopes – num testemunho em que se assume como tripulante da lancha poveira, além de director da biblioteca Municipal Rocha Peixoto e ex-director do Museu Municipal de Etnografia e História [1] - sobre as características muito próprias do trabalho no mar. “ (…) repare que Santos Graça escreve sobre o mundo vivido que conhece de perto. Gentes do seu sangue e do seu tronco. Mas ele não vai para o mar. Raros são os antropólogos ou sociólogos que embarcam. A vida do mar ainda é pouco conhecida. Assim como também há poucos que a entendam. O Arquitecto Lixa Filgueiras tinha na construção naval a sua especialidade. Santos Graça conhece a vida comunitária e estuda todos os seus aspectos, mas em terra, Nós estamos no cais e o nosso olhar é sempre um olhar de cais. Em terra, podemos caminhar ao lado do agricultor, como Michel Giacometti, gravando as vozes e os cantos do plantador de arroz enquanto trabalha. No mar raramente podemos fazer isso durante a faina da pesca. Também o pescador, quando chega do mar, sente que o profundo risco do seu trabalho – afrontar o mar – está cumprido. Cumpre o seu papel e desaparece. Salta para o cais e vai logo para o cinema, para o café ou simplesmente para casa e descansar e dormir. Com o barco atracado todas as tarefas passam para a responsabilidade das mulheres.” Com singeleza, Manuel Lopes sussura-nos a necessidade de mudar de paradigma (olhar para a terra a partir do mar) para interiorizar tão só a realidade piscatória, como a transportadora e a naval e, genericamente, a marítima.

SALDANHA, José Bastos, Boletim Cultural Póvoa de Varzim, Vol. 42 (2008), p. 139-147 (pdf)



[1]ANÓNIMO, “Conversa com Manuel Lopes, 2005.12.29”. Entrevista facultada pelo Dr. Manuel Costa, director da Biblioteca Municipal Rocha Peixoto.