Assoreamento dos portos pode deixar em terra centenas de barcos no Norte

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De Vila Praia de Âncora à Póvoa de Varzim, pescadores de vários portos queixam-se da ausência de condições de trabalho e dos riscos para a navegação
Ângelo Teixeira Marques, Susana Ramos Martins (16.10.2011 - 18h44)

Guarda-sol colorido espetado na areia, toalha estendida e pés na água, que o tempo convida na praia em que está transformado o porto de pesca de Vila Praia de Âncora. Fruto do "Orçamento do Queijo", viabilizado em 2001 pelo deputado Daniel Campelo, actual secretário de Estado das Florestas e Desenvolvimento Rural, ao Governo socialista de António Guterres, aqui foram gastos, numa primeira fase, 7,5 milhões de euros.

Mas agora faltam ao Instituto Marítimo Portuário as centenas de milhar necessárias para garantir o seu desassoreamento, o que põe em causa, nesta localidade, a actividade de 27 embarcações da pesca artesanal. Só da Póvoa de Varzim para norte, são quase duas centenas os barcos, e muitos mais os pescadores, afectados por este excesso de areia nos portos.

"Agora vem tudo cá parar", reclama Emanuel Franco, com um pé assente no cais, outrora flutuante e agora enterrado na areia, e o outro dentro da Moisés Joel, a embarcação de pesca de que é mestre. Juntamente com a tripulação, aproveita a manhã de sol e de maré vazia para preparar as redes que vão utilizar na faina, mas só quando o mar o permitir. O assoreamento do portinho de Âncora impede-os de sair a qualquer hora, exigindo uma espera paciente pela próxima maré. Enquanto isso, são obrigados a partilhar o abrigo de pesca com os veraneantes que, fugidos ao vento, decidiram tirar partido daquilo que é uma dor de cabeça para os pescadores: a areia. Quando a água desce, o areal que entretanto se formou dentro do porto torna-se extenso e convida avós e netos. "Isto passou a ser a praia das crianças e das pessoas de idade".

 

O cheiro a maresia acompanha Vasco Presa, que se junta à conversa depois de ter ido inspeccionar o seu barco, também ele encalhado na areia. Presidente da Associação de Pescadores de Vila Praia de Âncora, lamenta os prejuízos e o perigo que o assoreamento representa para a comunidade piscatória local, cada vez mais reduzida. "Reduziu-nos o trabalho em cerca de 50 por cento". "O Portinho já está nos cuidados intensivos. Está quase morto. Se eu quiser sair agora, não posso. Os barcos ficam presos na areia mais de 12 horas e nós estamos a perder 50% do nosso trabalho". De olhos postos na barra de Vila Praia de Âncora e braços abertos a gesticular, Vasco Presa exige uma "solução rápida".

Última dragagem em 20010

Várias dragagens foram feitas para tentar resolver o problema, a última delas em 2010. Inicialmente previa-se que custasse ao Estado 500 mil euros, para extrair 70 mil metros cúbicos de inertes, mas, devido a restrições orçamentais, retiram-se apenas 30 mil metros cúbicos, por 278 mil euros. Os resultados duraram pouco. Dragagens, diz o porta-voz dos pescadores, não são pois solução, apontando outras medidas para resolver o problema, como a intervenção nos molhes já construídos.

Soluções é também o que pedem os pescadores de Esposende para o porto que "está completamente assoreado" e para a barra que "está assoreada há mais de um século". Além dos encargos financeiros que esses condicionamentos provocam aos profissionais da pesca, o presidente da associação local de pescadores, André Cardoso, fala no "perigo desgraçado" que representam. "Já houve vários acidentes mortais e todos os dias há problemas que, por não haver mortes, não ficam registados. Só este ano já houve cerca de duas dezenas de acidentes que poderiam ter resultado em morte".

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